Arrisca-se a definir o que é ou não é design?

É muito comum no mercado, e até mesmo entre os designers, encontrarmos definições desta disciplina que estão relacionadas com aspetos estéticos, que valorizam exclusivamente a aparência. Mas afinal, o que é o design?

Antes de associarmos o design ao turismo é importante entender o que é, de facto, este primeiro. Só desta forma podemos construir relações mais consistentes entre estas duas disciplinas. Existem diversos tipos de design: gráfico, web, editorial, motion, industrial, de embalagens, tipográfico, entre outros. Chegamos ao ponto de encontrar variações populares que se apropriam do termo para agregar valor aos seus serviços, como o “hair design”, “food design” ou “cake design”. Mas, afinal, isto faz algum sentido?

Segundo Potter (1980), “em termos mais amplos, design é uma atividade que confere forma e ordem para atividades cotidianas”.

Estamos muito habituados a olhar apenas para os resultados de qualquer projeto e não tanto para a forma como este foi concebido. Para Brigitte Mozota, professora e responsável pela promoção internacional da disciplina, o design é vítima de uma frequente confusão, pois pode referir-se tanto a uma atividade (o processo de design) quanto ao resultado dessa atividade ou processo (um plano ou forma).

A professora, acrescenta que os media tendem a aumentar a confusão ao usar a palavra design para falar de formas originais, mobília, luminárias e moda, sem mencionar o processo criativo por detrás delas. Para ela, o design tem o objetivo de estabelecer as qualidades multifacetadas de objetos, processos e serviços, e a tarefa de descobrir e avaliar as relações estruturais, organizacionais, funcionais, expressivas e económicas. Desta forma, torna-se mais simples evitar as armadilhas de abordar o design na perspetiva do resultado, ou seja, como gerador de estética e aparência.

Deste modo, o design é um processo que é capaz de ser transversal a diversas áreas e atua em cada uma delas de forma a construir uma realidade melhor, estando intimamente relacionado a um método de projetos que envolve uma séria de fases que levam a uma decisão estratégica para a resolução de problemas, sejam de ordem visual, estrutural, relacional ou comunicacional. Temos então a resposta à primeira, e sobretudo à segunda questão colocada neste artigo: não faz sentido, uma vez que estes serviços estão pautados em decisões mais simples e sobretudo estéticas. O design é mais amplo que isso.

Mozota defende que o design é diferenciador, coordenador e transformador.

Diferenciador na medida em que busca uma melhoria para as marcas, produtos e serviços, de forma a ampliar o seu valor financeiro e a incrementar as vendas, através do valor percebido pelo cliente. Coordenador, pois age como uma ferramenta eficaz no desenvolvimento de produtos, coordenando e reduzindo conflitos, motivando e melhorando a comunicação de equipas interdisciplinares. E finalmente transformador, no momento em que a estratégia do design cria valor melhorando o relacionamento entre a empresa e o seu ambiente, antecipando uma visão clara dos futuros mercados e da concorrência, criando novos mercados e prevendo tendências que podem ter efeito direto no posicionamento da organização.

Todos os profissionais de design necessitam de know-how para a solução de problemas. Noutras palavras, o design promove uma melhor construção da realidade percebida e a realidade desejada, auxiliando no processo de melhoria e transformação.

Agora que conseguimos compreender o design, percebemos a sua importância num ambiente saturado de informações, produtos e serviços, onde é necessário procurar soluções não apenas numéricas, como também perspetivas. Quando entendemos as marcas como ativos intangíveis, percebemos que elas são construídas com base na perceção dos seus consumidores e o mesmo acontece com as marcas de turismo.

Esta atividade depende essencialmente do local e, portanto, o design pode atuar como diferenciador e gestor de perceções, capaz de integrar toda a comunicação sob o mesmo posicionamento, independente da atividade, seja ela um hotel, resort, evento, serviço e principalmente, os moradores deste local. A busca por uma identidade forte e tangível começa e termina no design.

Igor Moreira, brand strategist na Message in a Bottle